sábado, 28 de dezembro de 2013


fita os meus olhos
como ensinou cartola
a lágrima é a agulha da vitrola



haicaizinho do sonho que sonhou

em teu sonho me faço
inteira de cheiros e saudade
sou água no deserto, miragem


na sala de jantar
os pratos sussurram
os nomes que já não estão


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013


e depois de tudo conquistado, o queixo duro das queixas
as mãos ainda fraquejam num primeiro ataque, de soslaio

agora deixem-me a sós com minhas próprias divagações momentâneas
minhas feras de aço que eu mesma as esculpi

agora só me falta hastear a bandeira branca dentro de algum fosso profundo
que de lá ninguém há de duvidar que um dia eu ganhei essa guerra

dentro desse fosso profundo uma inocente ideia me faz duvidar
se, um dia, ser mais que o sol



quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

a busca III

te trago novamente arrastado
a esse poema de névoas esquivas

de tempos áureos impérios gigantes
onde os passos daqueles que caminhavam por aqui

veja agora mais de perto
quase encostando o rosto na relva acesa desse chão

não eram apenas passos
ramos de ouro contornando um segredo

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

reintegração


reintegração de posse
num prédio da Ipiranga

um homem passa e tira foto
do seu iphone magistral

a) se o celular for roubado, a foto estará perdida para sempre,
cristalizada num momento-quase de suspense e denúncia?

b) se o celular não for roubado, o homem permanecerá
o mesmo, encoberto das vicissitudes do dia-a-dia

c) a polícia já avança o segundo andar

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

a busca II

te trago novamente para esse poema-ruído-de-mim-mesma




vigas e vertigens

criar o espaço:
nuvens, balão

criar o espaço de aço:
vigas e vertigens

muita corda para um só pescoço
criar o espaço do corpo

fosso
osso
feto
sombra
jejum

o espaço do corpo é ermo,
desjuntado

- me deixe agora sozinha fazendo esse breve relato.



a busca

te trago mais uma vez
arrastado
a esse poema/suspense
e com ele todo o meu desdém
vem junto, como apêndice

olha pra mim agora e tenta decifrar
a cara miúda, sórdida
que faço enquanto você me avalia

olha pra esse poema agora
e me diz quanto é

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

entre o rio e a razão


eu sempre escrevi poesia sem saber o que era (
                                                                       
suas limitações e encontros
um descompasso
a casa & os quartos
um feitiço contra o tempo
o amanhã
o antes

nem
                        nunca

) e mesmo hoje, conhecendo-a?
                                                      :
                                                      como uma porta, um flanco, uma beirada; ou jangada;
                                                      frio&mar; um aviso que sopra e percorre lugares


continuo a mesma mulher de antes                      a     t     e     n     t     a
a um desvio

(caminho sem surpresa para frente e para trás. meu sonho de criança me recorda que um dia, sim, houve um dia quente úmido e selvagem que eu quis ser eu mesma)                                      
                                                                                 
                                                                             
e começo a chorar quando a música toca na parte que diz right or wrong, don´t matter

se hoje um pássaro negro alçou seu voo infinito e quis me consolar
se hoje um pássaro negro com sua consistência de pássaro e matéria viva explodindo no ar quis me consolar por ser da cor do infinito e mais puro que o grito que ele dá quando um tiro o descarrega lá de cima

e suas plumas tocam o chão
                                                     mais
                                             de
                                                     uma
                                             vez



eu permaneço a mesma
a   t   e   n   t   a
entre 
o rio 
a razão

quinta-feira, 28 de novembro de 2013



deixar as emoções num tempo vitalício, o antes e o agora. não sei mais escrever sem pensar em qual tempo direi. não sei mais escrever se não conheço todos os outros, tempos e versos. me recuso a dizer o que nunca nada mudará no mundo nem em mim

digo: nem em mim

talvez um olhar que eu descarregue na paisagem que se esvai ou se retrai. eu me distraio sempre e me ergo inteira pra constatar que nenhuma palavra à toa hoje me deu bola. nenhuma palavra hoje me disse: vem. pois eu fui caminhando passos largos me desalinhando passo a passo. era o que eu queria. outra versão do quê. uma outra nada daquela, mais subaquática e menos terrena. mais água. quanto mais água, mais translúcida

e ainda assim, não sei

e ficar toda à toa dizendo qualquer? e ficar sempre procurando se talvez? não quero construir um quarteirão de versos se você não puder mais vir, se você também não mais dobrar a esquina. não posso deixar que esse texto me ataque assim de sobreaviso. mas digo que faria tudo outra vez. e sem nenhum tempo perfeito eu deixaria todos os outros versos à míngua. deixaria a boca seca à míngua também. sem nenhuma droga pra você se poupar, sem nenhum nota pra você se conter, sem véu nem mistérios

eu te quis em um só verso, inteiro em poucas linhas

e ainda quero o in verso daquilo que quis e procuro, continuando

porque a prosa me desalinha, mas talvez te queira em prosa também. tudo isso foi e é meu mundo. e não quero saber do que se trata. nada disso se encaixa mais perfeitamente do que te ver num verso. te ouvir num verso, quando leio

"a linha de uma vida inteira"

e me emociono porque sei que se um dia acaba, a linha fica pois o verso se desdobra assim:


a vida inteira pra dizer o que sentes & um verso que fiz e não esqueço




terça-feira, 26 de novembro de 2013

haicaizinho da mulher distraída


me inveje dos pés a cabeça
pois tenho várias
e nenhuma te repara


sábado, 16 de novembro de 2013



uma música ao fundo
estremece em meu ouvido:
que sera sera



sexta-feira, 15 de novembro de 2013



quero ser tua
subo a escada
desço nua



haicai do dia com sol ou uma tentativa de atingir o nirvana (mesmo que o corpo não deixe)

me traga um sol maior
nunca um fá sustenido
ao alcance da alma
todo sol é bem-vindo

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Serra do Cafezal:
No ônibus da Itapemirim
meu amado suspira

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

ruínas

pela fresta
do corpo
vai adentrando
um fio de luz,
uma viagem
ano-luz
até a escuridão




sexta-feira, 1 de novembro de 2013

o homem do mar
e seu engenho:
soltar a vela

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

uma noite

ela descobriu o céu ontem
e por ter transposto esse fio
ficou suspensa e imóvel
entre o susto e a contemplação

quarta-feira, 23 de outubro de 2013


e sempre naquele devir
desconstruir o que fui
e colar os cacos
com uma goma

talvez nasça daí
uma peça que se quebre
outra

talvez nasça daí
uma nova inocência,
menos século vinte&um

a goma se distrai
e em vez de juntar espreita

se der,
as verdades mínimas
tornam a vida mais possível

quiser,
sou pra sempre impossível
quase um candelabro pegando fogo
nesse silêncio irrevogável
que são seus olhos sobre a mesa



terça-feira, 22 de outubro de 2013

um copo de nanquim

a destreza no meu corpo
arrebenta
toda a tempestade
que um dia
uma confissão me trouxe

me deixou aqui despercebida
aos detalhes mais
simples

que é de tinta
essa vida

meus olhos castanhos coroam
alguma planície ao longe
mas agora minguam
para um copo de nanquim

por que(m) choram meus olhos
que também são negros quando ardem
e tão sóbrios quando latem

porque meus olhos choram
que trago a ti um copo de nanquim
para que borre comigo
a tempestade
que um dia
uma confissão me trouxe

terça-feira, 15 de outubro de 2013


agora a noite carrega a palavra pra dentro de um buraco vazio e comprido carrega pra dentro de um buraco vazio e comprido carrega a palavra rastejante no ouvido a palavra cega carrega a palavra quebrada pra dentro não tem nada não tem água está escuro sem nada a palavra um ouvido vem vindo carrega a palavra pra dentro de um buraco escuro e vazio carrega a palavra pra dentro de um ouvido vazio e comprido carrega e martela mil vezes até a palavra quebrar o ouvido o caminho e o escuro.


desprezar a palavra
até seu último suspiro
ser vento, pista, chegada



sexta-feira, 11 de outubro de 2013

tão clara
tão sua
a lua encosta
no seu rosto

pluma
subo a escada
para ver de perto a lua
e desperto
mais clara
que o claro
da lua

haicai clara luna

                                               para maria clara

olha a lua
longe e clara
vou de escada




quarta-feira, 9 de outubro de 2013

virada

não dá pra fingir que ninguém saberia. agora mesmo me ergo e penso quem sabe um dia você soubesse. o arremesso que faço, me jogar tresloucada no olho da rua. não ouço recado. carro de aço subindo a planície de pó e neblina. óleo de carro fazendo como borra de café pela faixa. na rua seu pé periclitante rondando, não vi acenar tantos dedos, me virei do avesso na esquina e tombei no horizonte. às dez horas de sol todo mundo confunde café com fumaça. eu me entrego num trago, nem duvido do dia. daí me lembro que nasci mais concreta que o acaso e nem cheguei no ponto que queria. eu me entrego num carro, que a rua me tragou com seu cheiro moderno, de ave moderna. o carro mergulhou seu dente afiado no azul de outro dia, passou por cima por baixo da avenida (ou da menina?), tal qual eu não vi decolar no vai e vem dessa via eu não via você vem, ou não vem? não sabia. não dá pra fingir que ninguém saberia. ontem a noite nem consegui o cachorro latindo era um gato minto era um rato minto era um sonho (ou soldado?) pulando telhado era um banho de lua gelado era um canto de chuva um chiado de mim. minto, era um banho dentro de um sonho dentro de um gato dentro do buraco. mas isso aconteceu do outro lado da cidade, numa virada.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

caminho

ter sido
aquela que te quis
profeta
só atesta
meu grande
anseio
em te ter
ao meio
(ou no centro)
do meu imenso
jardim


domingo, 6 de outubro de 2013

homem age


bashô pintou
na destreza do acaso
e ficou







põe o máximo
nesse mínimo
haicai





sábado, 5 de outubro de 2013




outubro me interpela
quiser sou apenas vento
sobre a pele








outubro me questiona
quanto de ontem
ainda à tona?






outubro nunca chega
sem compasso
vem vento, lento abraço








um adendo
quanto de mim
fora e dentro






no intervalo da vida
peso em mim
medida por medida



em paris tudo dança
até a mágoa balança



se despeça
cada peça
en cen ação







como ser
se nunca
ter sido

alguma
vez
foi comigo










setembro vai longe
resto do azul
no horizonte



sexta-feira, 4 de outubro de 2013

controverso III

ai de mim
quanto mais eu digo
não digo quanto
mais um tanto
se desfaz
e eu me refaço
em cada ai

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

controverso II

se eu disser que meu amor hoje acordou mais doce e apaziguado, você vai acreditar se eu disser que hoje, na altura em que o sol se esconde, na leveza desse mar de quando, acordou mais ao seu lado, coberto de si e de mim e por um instante disse sim


controverso

e era um sim toda vez
quase nunca foi não
foi dessa vez
quase ou sempre
quando da primeira



terça-feira, 1 de outubro de 2013

haicaizinho da primavera que (mal) chegou



folhas secas que traz
na bagagem?
miragem







má educação

quando muito
aceito pouco
inda devolvo

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

manhã revisitada

um homem sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros gritos 
abafados de outros tantos 
arrastados e acumulados em ecos seriais 
que entardecem o dia
para tecer uma mesma manhã noturna 

um homem sozinho não tece uma manhã:
em vez, ele acorda, faz o seu café e se prepara
sozinho para mais um dia de luta
tecendo uma tela escura que não se chama escuridão
mas que se chama outro dia 

e a história que ele faz fará ou fazia

é a história que ele faz a noite e de dia
num grito abafado,
num canto sozinho
e a tarde, o sol caindo 
como um grito de um cão

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

carta ao profeta

sob o galho de uma oliveira
também nasce uma flor de jasmim

(de outros tempos, mediterrâneos e
o oceano inteiro para banhá-la)

como aquela que me olha
enquanto vejo as torres se erguerem
do mesmo lado da planície




escrever me ajuda a não sei o quê
de um vitral que filtra dores antigas,
no desdobrar dessa luz
que invade
e colore uma dobra de um mármore

escrever me ajuda a fazer não sei o quê
com as palavras,
se todas juntas querem dizer todas juntas?

escrever pode ser uma forma de não saber
se elas se (re)voltam até você e
não explicam mais que o contorno
dessa escrita destinada a expressão






segunda-feira, 23 de setembro de 2013

licença para um descompasso

meu avó sempre foi um homem cruel com as mulheres
(falo baixo porque isso não é tema de almoço)

e todas as mulheres tiverem que se curvar,
de algum modo,
à sua maneira

mesquinha, rasteira e imperial
de ver a vida
por cima dos ombros de alguma certeza inaudita
e professoral

e a lembrança fresca ainda de um pai que não foi
ou foi a seu modo de não ser
me traz também a lembrança fresca de alguém
que abusou e torturou e matou quantas vezes
sua pobre consciência o fez crer

no meu no teu no n(osso)
corpo o contorno das dobras do coração mais parece um balão
que sobe num jato e explode sobre as nuvens
sem estrelas e sem mistérios

e ao cair,
alcançam o garfo e os pratos que nomeiam o teu sabor
tantos nomes para essa noite
tantas noites para um mesmo nome
e agora eu vou contar

que faz sol e parece que não vai chover
mas meu corpo se envaidece com alguma mentira
posta sobre a mesa

e se envaidece ainda mais
com o nome do meu avó que eu repito
quando os corpos já se levantam
e todos olham acanhados

porque não era preciso tanto,
porque não era preciso nunca
que você tocasse assim
numa ferida que não lhe pertence

mas peço licença,
se isso te comove.





a viagem

o pai dele se mudou esses dias, foi para longe
a mãe dele também
se mudou esses dias pra bem longe
da planície

desses dias
desse frio e o agito
e esse caos

maldito que me leva para a certeza
das casas que ficam,
que não tem previsão
e sobrevoam por alguma planície certeira cristalizada pelos anos

eu acendo uma vela no meu quarto escuro
e nomeio algum deus que não conheço
mas que agora jaz soberano no meu terreiro de pedras,
no meu terreiro de rezas 
aflitas

me tragam alguma sorte
me tragam alguma morte

na qual eu me despeço de um mal que não cometi
e todo mal que cometi é todo mal que consenti
e todo mal que está por vir e cada mal que jaz aqui e ali

eu não consigo provar nessa reza o que é amor e dor
eu já tentei consolar uma missa inteira para o meu amor
uma missa e meia para toda dor e o amor

jaz no leito desse choro dessa vela
já acendi todas pra mim
pra ela
e nós,
e no fim

essa magia das coisas ocultas,
essa magia de um tempo vindouro
num terço num berço um santo pra nós

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

dois olhos grandes

um sonho dentro de um olho
ou o olhar descansando
na superfície dura de uma pedra:
todo sonho é perfeição

no limiar do olhar um sonho irrompe
e explode na cara do verbo querer

todo sonho é indagação
daquilo que é e está
e não quer rimar amor e dor

- mas rima,
mesmo sem querer,
amor e dor

hoje eu sonhei com você
e assim como ontem, e amanhã e depois
e talvez,

você estava mais vivo
você estava tranquilo
porque olhava pra mim


***

uma vez, meu sonho de menina foi um vestido trapézio. quis tanto que minha mãe se propôs a fazê-lo. tirou minhas medidas e depois de minutos já tínhamos o essencial: o desenho acabado, entre ângulos e linhas retas, sobre os moldes do tecido. acompanhei passo a passo a feitura desse vestido. dava palpites, dizia que não, um pouco mais curto e rodado, talvez. relutava, fazia que sim com a cabeça, pensava um pouco e decidia. minha mãe escutava. a cada pano cortado, se alinhavava em mim alguma coisa surpreendente e inédita. o barulho decidido da tesoura me deixava em êxtase, subtraindo o pano devagar, vagarosamente. talvez se a senhora costurar mais depressa eu consiga dizer se ficou bom. se ajoelhava até mim, ficava do meu tamanho. media novamente. enquanto isso, eu brincava com a fita métrica, querendo saber minha altura no mundo. media os pés, o braço, a cabeça. naquela época, eu dividia o mundo em duas categorias: coisas calculáveis e coisas incalculáveis. não que eu soubesse resolver expressões aritméticas muito complexas, mas, apresentava, ao meu modo, sensível e criterioso, alguma medida, maior ou menor, para as coisas mais sérias e importantes. o sonho do vestido era incalculável. já o vestido, depois de pronto, possuía alguma medida: um metro de seda branca com bolinhas vermelhas. como acabamento, uma golinha que abotoava por trás com um feixe de pérola. não me lembro de ter pedido, assim, com esse detalhe. mas minha mãe talvez entendesse de sonhos e de vestidos mais do que eu. sei que ele ficou pronto, e entre o desejo e a espera, morou em mim um tempo de indagação e magia. como entender o vestido depois de feito, se o sonho do seu feitio nasceu bem antes, perdurou por dias, ainda estava? como lidar com essa sensação de espanto e alegria? não entendia. usei o vestido ininterruptamente, cotidianamente, intensamente. ele me encantava e eu nem sei bem o por quê. talvez por ser parte de uma criação minha, de um desejo só meu. talvez porque um dia eu sonhei em tê-lo por perto e isso fez crescer em mim uma busca inadiável pelas coisas intangíveis, embora seu espaço no mundo coubesse perfeitamente sobre as minhas medidas.




sábado, 3 de agosto de 2013

mas a gentileza também pode ser o apanágio daqueles que não esquecem, pensava. o desdobrar das palavras se aglutinando numa tarde fria, dando em nada. o desdobrar lento de qualquer palavra morna e passageira dava no azul. o céu tão vasto não pode abarcar o que sinto, por isso ando pensando muito em ser repouso e névoa num ponto alto de outro céu. fincava os pés num distante arenoso, profundo. caminhava com o mesmo temperamento de sempre, só que mais suave agora. o vento passa e leva meus cabelos para trás, parece querer me levar também. o vento passa e penteia cada fio num balançar eterno, confuso, mas real. enquanto isso, caminho e assento a minha vaidade sobre essa terra batida, essa fibra de aço que se distende sobre as eras. a cada passo, um sumo doce e festivo cobre os meus pés. em cima de qualquer vazio, as palavras do mundo tomam forma e gosto, deliberando sobre o surgimento de qualquer coisa. me pedem para ser outra. me pedem tanta coisa, não mais o previsível. eu é que me esqueço no arcabouço singelo de mim mesma e refaço qualquer traço inteligível porque não pretendo mais ser tão abrupta. um cansaço vadio se aproxima e deita sobre mim. alargo meu corpo pra recebê-lo e vejo um conjunto de nuvens se aproximar, destoando o fim de algum fim. eu passo a minha vez. imaginava que o futuro só fosse futuro enquanto sonho. mas deitada nesse chão, o olhar detido nesse céu azul, penso que o futuro também é essa nuvem que se ergue e, carrega, passageira, uma cor pra algum lugar.


quarta-feira, 15 de maio de 2013

haicaizinho das horas vindouras

se me perco
é no intuito perfeito
de me cercar

domingo, 31 de março de 2013

clarices

eu sou a joana da clarice
esperando resposta

eu sou a joana da clarice
no meio da rua
às cinco da tarde,
esperando resposta

mas,
no meio da rua,
às seis da tarde,
se a resposta não veio,

aí já sou por inteiro
a joana de qualquer um

terça-feira, 26 de março de 2013

monet ou manet

tomar distância das coisas
como num quadro impressionista

quanto mais longe você olha
mais nítida a imagem fica

quinta-feira, 21 de março de 2013

haicai dos dias sensíveis

parece que foi ontem
a vida, trôpega,
caiu no meu semblante

segunda-feira, 4 de março de 2013

outro dia assim
virei de costas
trombei em mim

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

orides (imitada)

tudo será difícil de dizer
mas mesmo assim se diz
ou a verdade se esconde
atrás dos seus olhos
aturdida com o barulho
dos nossos passos

tudo será duro
como um céu sem estrelas
quando você olha para o alto
e só vê o passado se expandindo
carregando a poeira
dos seus próprios pés

tudo será capaz de ferir
tudo será capaz de ferir
tudo será capaz de ferir

não há piedade nos signos
e nem no amor
não há piedade nem em nós
quando comovidos com os
signos e com o amor

toda palavra é crueldade
é um labririnto
cuja entrada movediça
te lança para a pista
na qual você dança
ou se arrisca a ser lança



domingo, 10 de fevereiro de 2013

a queda

a chuva anuncia uma queda
e despenca do alto como
um pássaro túrgido
cheio de água,
cheio de si
e de esmolas poucas
e também de outras vidas

deságua
explodindo
um turbilhão de gotas
sobre nossos corpos

- são as lágrimas que sempre nos movem

a chuva se esparrama
e cobre meus pés



sábado, 19 de janeiro de 2013

ponto final

não leve a sério esse poema
que não é
ou é a seu modo
de não ser, e está

ficando tonto
de tanto hesitar
em ser um ponto

final (mas eu deixo aqui o ponto se deitar.)


o princípio

no início era difícil,
daí os dias foram passando
e a ideia na cabeça
se inclinando

caindo inteira
abrupta, como um raio abrindo o chão

abriu em mim, um cataclismo

e no início era difícil
separar o joio do trigo

de sal

nunca pensei
em virar um

dia estava andando
e dei de cara com um

dia amanheceu
amarelado
assim ó

que até parecia
o vazio
assombrando tudo,
deusmelivre
e pensei:

será de pedra
o seus sorriso
e de terra
o meu pesar

tanto faz
se o galo canta,
é outro dia,
deusmelivre
só de pensar

que virou pedra de sal
a mulher que olhou para trás,
eu tremulo toda
e não olho nunca

para frente,
deusmelivre
só de pensar

de dia

levantar a poeira
sobre a mesa
e limpar os gestos
caídos
sobre os móveis
da sala

os cômodos estão vazios,
os cômodos estão cheios

de vapor d'água
e de carne se
acumulando
crua e bruta

enquanto o vento
se esconde
atrás da porta,
- porque a janela estava aberta

de forma que ele entra,
ele passa
e arranca
todos os quadros da parede.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

um pintinho

e podia passear resoluta dentro de si? a manhã adentrava no sulco raso do seu rosto e aquecia algum impedimento, algum lugar inabitado, sem nome. um pé após o outro, pensava. ela caminhava como se aprendera agora. um pé após o outro e os passos se dão assim. se davam? se quisesse voltar, seus pés saberiam o caminho embora ela mesma nem soubesse o por quê. se quisesse voltar seria no estreito caminho em largas avenidas e pontes e rios tão largos que seu peito se expandia agora todo só de lembrar que o tempo não fazia chuva. e só podia continuar, caminhando. um pensamento após o outro se desdobrava inteiro e caía aos seus pés. um pensamento solto, quando penso? se abre e se estica no espaço contido em si mesmo preso numa sequência. nunca solto, sozinho. uma cadência infinita de interfaces pairando no azul rodeado de muitos outros pensamentos vivos e mortos ou calados contornando o vazio. um pensamento ruminava dentro dela. queria se desvincilhar, fazê-lo nascer em outro canto com novas aberturas. na verdade, queria que ele aprendesse a ser só. um pensamento após o outro isso eu até queria mas não podia mais, eu andei pensando muito em te deixar sozinho pairando no escuro. para ver a potência da sua solidão e sentir a origem da sua força tentando estancá-la, sozinho. uma vaidade só minha, que de vaidades se nascem muitas vidas, e outros pensamentos. por isso quero solto. não andemos de mãos dadas agora. perderá o sentido, você diz? perderá a toada e a sequência de séculos se acumulando amontoados e densos na envergadura de qualquer ciência feita também no escuro. mil tiros dados, a experiência. mas deixe-o agora, respirando aflito como um filhote sem a mãe por perto. será que pode me ouvir? se eu disser buhhh na certa se assustará. mas não quero que tenha medo, vou até te dar um nome. vou te dar um nome cheio de sentidos e uma vontade imensa para não querer jamais parar de respirar. mas me deparo com seus olhos úmidos e surpresos, admirando o vazio. me inclino para ouvir a batida em seu peito e sinto a presença de uma vida prestes a nascer. e penso: acho até que está vivo.

metódico


a ordem natural
das coisas:

o cair
maduro
de um fruto,
no chão


(nasce uma ciência)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

o tempo da palavra II


o tempo da palavra
(ou seria o pensamento?)
é o tempo da dor
do amor
da cisão

o tempo da palavra
- com todo o frescor e acidez
que ela possui
é o tempo de uma guerra

o tempo da palavra I


o núcleo de cada
palavra

respira e se agita,
borbulhante

uma palavra nascendo: ontem
uma palavra morrendo: agora

o núcleo de cada
palavra emerge
contra o vento,

e se enrijece,
bruta

como um pássaro
vencendo a tempestade

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

um postal


a realidade me come viva por dentro
prendo entre os dentes essa lisura de aço que
rasga minha boca apresentando todos os meus defeitos
todas as minhas amplitudes
como um soco na boca do estômago, às três horas da tarde,
a gente nunca sabe a que horas virá
a gente nunca sabe quando a platéia deixará de aplaudir
aquele ato encenado mil vezes,
a custa de muito choro e sorriso
na cara daqueles que encenam

cartomante

me dê sua mão
me deixe ler
sua solidão

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013


o tem
  po
se  es
v  a  i
 con
           ti
 nua
mente

e

lev
a os
os
sos
do of
íci
o

terça-feira, 8 de janeiro de 2013


d oi s
home
nsse
ol(e
nqu
ant
och
ov
e)ham

ilustração


eu não faço poesia
eu não faço poe
eu        faço p  es
eu         aço po 
eu não fa           sia
     não          p  es a

                     poesia

                     po  s a
                     poe
                     p      ia

                 
                    
                    

sábado, 5 de janeiro de 2013

a rosa imperial

no pátio escorregadio da memória permacem vivas as estátuas que, ao longo dos anos, eu cultivei como se fossem flores. mas são estátuas. são todas brancas, nobres e pesadas, de tamanhos diversos. aos seus pés, uma inscrição modesta, dando pistas apenas das suas origens, das suas envergaduras e permanências. hoje, não me dão tanto trabalho, mas, às vezes, custa movê-las para lá e para cá, quando o vento ameaça derrubá-las e corro para resguardá-las num lugar seguro. custa, um pouco, arrastá-las para o centro, quando um desejo morno irrompe e me vejo querendo contemplá-las todas juntas, lado a lado. sobrepor uma a outra, obtendo seus desvios. sobrepor uma a outra e atentar a seus contornos ásperos, poucos, macios. agora mesmo me cansa ajeitá-las novamente no lugar em que estavam. será que vão dar por essa falta? à noite? outro dia ouvi um ruído, parecia que choravam. dei de ombros porque não gosto de lamentações. mas elas choram com um som parecido, então fiquei sem saber o choro de quem. em seguida, ouvi uma voz me dizer, "que dura que és, vai virar pedra branca gigante um dia". dei de ombros também porque não vi o rosto de quem. e falava, falava, "vai virar pedra branca gigante". acordei com esse susto molhando meu rosto. não consegui mais dormir e verifiquei se estavam todas lá. estavam. o vazado da lua batia em suas curvas e lançavam um clarão para dentro. era bonito contemplá-las todas juntas, lá fora. não me dei por essas formas tão grandes. foram crescendo, crescendo, ficando cada vez mais espessas, quase imóveis. acredito que daqui um tempo eu não consiga mais arrastá-las para qualquer canto, estão cada vez mais pesadas, imperiais. já deixam uma marca profunda fincada nesse pátio em que habitam. admiro certa interdição de seus atos. suas mãos majestosas, por mais duras que sejam, carregariam uma rosa. contemplo o olhar estático de cada uma, mirando para o norte de mim mesma. admiro essa permanência, essa resistência, essa rigidez. admiro, por horas, a quietude dos seus passos.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013


         mep
          er
        dino
       meio
    docamin
       home
         pe
         rdi
     nomeio
         d
       oca
       min
      home
      perdi
        no
        me
        

la
nce(v a g a

r o s a

m e n t e)
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no in(im

po

nem

te)finito

minhasorte.