segunda-feira, 31 de dezembro de 2012


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domingo, 30 de dezembro de 2012


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voltas


o trilho
na estrada
se aperta
em seu nome
vertigens
e nostalgias

ninguém
se incomode
com o seu chegar:
do alto
do longe
do avesso

daquilo que outrora
era caminho longo e
saudade a resguardar

a locomotiva
se anima
quando as mãos
trançam um fio de afeto
e furtam do azul
uma nesga daquilo
que foi, é
e será

que o filho
dos nossos filhos,
um dia, saberão?
o destino,
talvez

(mas o destino não disse a que veio)

e desembarcam, buscam,
se lançam à frente,
talvez

quando o brilho do farol
apita e se deita sobre
um olhar mais taciturno

todos respiram fundo,
se lamentam,
mas logo se ajeitam

pra partirem também
de volta a seu novo mundo
que o velho ficou sentado
no banco de trás
e não quis descer

que do outro lado da via
alguém com mais
humanidade
o esperava

de olhos bem abertos
apesar desses olhos
não mirarem terra à vista

apesar desses olhos mirarem
apenas
para o mar

tantas e tantas
voltas
pra chegar aonde
ninguém agora
convém se lembrar

entre chegadas e
partidas

o caminho é o mesmo:
estreito, vasto e lunar

entre idas e
vindas,

o caminho também pode ser esse:
um retorno a si mesmo


sábado, 15 de dezembro de 2012

naquele dia o que se ouviu foi um estrondo que partiu o vazio daquele sala em mil partes. e ficamos a catar os pedaços que sobrevoavam por nossas cabeças e se moviam lentamente de um lado para o outro como um hastear de bandeira no alto num dia com pouco vento. - a bandeira lá em cima, hesitante. o branco da sua mancha, hesitante. quando, finalmente, nos demos conta de que o ruído acabara, de que o estrondo se fora, ficamos imóveis na sala, como pinos soltos rodando atônitos em volta do que havia sobrado de nós. e ouvi alguém chamar por mim mas sua voz ecoava distante num túnel longo longe e torto cheio de rasgos intermitentes que eu não conseguia distinguir muito bem o que você está me dizendo? olhava o seu rosto coberto de uma névoa branca te vendo desfocada na fumaça envolta na roda da sua retina a minha cintilava espelhando eu mesma? espelhava eu mesma. eu me vi na roda da sua fortuna. e ela girava girava sem parar, fiando os fios que se avolumavam e cresciam, fiando os ruídos que me ensurdeciam e cresciam, fiando um caminho de sorte por entre o batente daquela porta alguém entrava e saía, alguém gritava e caía, alguém falava falava e media o meu fio com a medida que tinha nas mãos, com a medida das suas próprias mãos, e a soberba ilustre de uma maquinaria de aço correndo e cuspindo óleo e tradição de uma vida inteira de triunfos não me deixava mais dormir, não me deixava mais mentir quando então eu pude escutar o canto do esgarçar vagaroso de um fio que se rompia, de um laço se desfazendo, frouxo, largo, manso. se destacando do resto por ser uma parte inteiramente sozinha.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

de súbito
o universo
acolheu 
teus passos,

e alhures te vejo,
descalço,
no alto

- teus pés
não tocam
mais o chão.
melancolia
colhe teus frutos
sobre mim

soberba já não há,
e a teus pés
eu descanso
desse infinito descaso
do teu acaso

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

na mesa


a família rodeava a mesa e esperava o jantar. esperavam também a figura do pai repousar resoluta no canto comprido da mesa. mas até que ele não chegasse, o sorriso de todos se expandia, se espraiava e derramava um pouco do colorido alegre que caía e se assentava e se confundia até com o florido da toalha e fazia aquele lugar parecer um lugar possível, respingando alguma certeza pelos cantos da casa e pelos cantos da boca uma verdade inaudita nascia e sorvia um fio de delicadeza dos seus instantes finais, até todos se calarem, ajeitarem seus corpos frente a mesa, frente aos copos e talheres, frente ao destino, frente aquela paisagem dura e insípida, frente ao corpo imperial e o olhar incidente que a noite teria que digerir e engolir cada pedaço daquela comida insossa e nauseante, cada pedaço daquele dia absurdo e intragável, aquele mastigar triturante que absorvia também nossos corpos, triturados, mastigados e deficientes, aquele mastigar de mandíbula que não acabava nunca, que abocanhava sedento cada parte maciça de uma vida inteira de luta, e mastigava bem devagar vigiando um a um, engole seco a comida, engole a seco essa vida, que os olhares não se cruzavam, que os olhares não se olhavam porque quem olha deseja algo e ali ninguém desejava nada a não ser que o tempo corresse o mais depressa possível para que ainda um resto de noite sobrasse e fosse possível respirar, ainda que respirar fosse a última prece forjada num som aturdido das nossas bocas miúdas que mastigavam, que se apertavam e se alinhavam num horizonte longínquo, misturando o gosto daquela noite com uma amargo qualquer.

descompasso I


eu ando
 tendo tonturas
há mais de um ano
rodopiando como um pião
gira
vertiginosamente
sua dor e roda

virada
no meu próprio turno,
girando nesse gira-mundo,
que essa tontura não me deixa
nunca, que essa tontura
(a) só (s)
me deixa

presa
como num assalto
a mão armada,
e de sobreaviso, me enfeita:
nessa linha do horizonte,
cambaleante, o seu corpo
não se alinha.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

tanto faz

quanto mais eu escrevo
mais relevo na estrutura
gramatical se alinha

ora pra dar rima,
ora pra dar linha

quinta-feira, 26 de julho de 2012

haicai do dia aflito

grito?
não,
grifo.

haicai dos dias possíveis

horizonte
linha
cambaleante

acabou linhagem

só restou
o corpo
para assinalar
essa clivagem

segunda-feira, 23 de julho de 2012

epicentro

encontro um ponto possível
na circunferência desse arco
que gira

e me desloca para o centro
descoberta de mim mesma

encontro um ponto possível
no epicentro do furacão

terça-feira, 10 de julho de 2012

haicai ao amigo forasteiro

gigante o seu passo

pasto

pata de elefante

domingo, 1 de julho de 2012

haicai da vida que passou num segundo

vida,
passou?
nocauteou-me

haicai do potlatch

retribua:
a dádiva
é sua