sábado, 19 de janeiro de 2013

ponto final

não leve a sério esse poema
que não é
ou é a seu modo
de não ser, e está

ficando tonto
de tanto hesitar
em ser um ponto

final (mas eu deixo aqui o ponto se deitar.)


o princípio

no início era difícil,
daí os dias foram passando
e a ideia na cabeça
se inclinando

caindo inteira
abrupta, como um raio abrindo o chão

abriu em mim, um cataclismo

e no início era difícil
separar o joio do trigo

de sal

nunca pensei
em virar um

dia estava andando
e dei de cara com um

dia amanheceu
amarelado
assim ó

que até parecia
o vazio
assombrando tudo,
deusmelivre
e pensei:

será de pedra
o seus sorriso
e de terra
o meu pesar

tanto faz
se o galo canta,
é outro dia,
deusmelivre
só de pensar

que virou pedra de sal
a mulher que olhou para trás,
eu tremulo toda
e não olho nunca

para frente,
deusmelivre
só de pensar

de dia

levantar a poeira
sobre a mesa
e limpar os gestos
caídos
sobre os móveis
da sala

os cômodos estão vazios,
os cômodos estão cheios

de vapor d'água
e de carne se
acumulando
crua e bruta

enquanto o vento
se esconde
atrás da porta,
- porque a janela estava aberta

de forma que ele entra,
ele passa
e arranca
todos os quadros da parede.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

um pintinho

e podia passear resoluta dentro de si? a manhã adentrava no sulco raso do seu rosto e aquecia algum impedimento, algum lugar inabitado, sem nome. um pé após o outro, pensava. ela caminhava como se aprendera agora. um pé após o outro e os passos se dão assim. se davam? se quisesse voltar, seus pés saberiam o caminho embora ela mesma nem soubesse o por quê. se quisesse voltar seria no estreito caminho em largas avenidas e pontes e rios tão largos que seu peito se expandia agora todo só de lembrar que o tempo não fazia chuva. e só podia continuar, caminhando. um pensamento após o outro se desdobrava inteiro e caía aos seus pés. um pensamento solto, quando penso? se abre e se estica no espaço contido em si mesmo preso numa sequência. nunca solto, sozinho. uma cadência infinita de interfaces pairando no azul rodeado de muitos outros pensamentos vivos e mortos ou calados contornando o vazio. um pensamento ruminava dentro dela. queria se desvincilhar, fazê-lo nascer em outro canto com novas aberturas. na verdade, queria que ele aprendesse a ser só. um pensamento após o outro isso eu até queria mas não podia mais, eu andei pensando muito em te deixar sozinho pairando no escuro. para ver a potência da sua solidão e sentir a origem da sua força tentando estancá-la, sozinho. uma vaidade só minha, que de vaidades se nascem muitas vidas, e outros pensamentos. por isso quero solto. não andemos de mãos dadas agora. perderá o sentido, você diz? perderá a toada e a sequência de séculos se acumulando amontoados e densos na envergadura de qualquer ciência feita também no escuro. mil tiros dados, a experiência. mas deixe-o agora, respirando aflito como um filhote sem a mãe por perto. será que pode me ouvir? se eu disser buhhh na certa se assustará. mas não quero que tenha medo, vou até te dar um nome. vou te dar um nome cheio de sentidos e uma vontade imensa para não querer jamais parar de respirar. mas me deparo com seus olhos úmidos e surpresos, admirando o vazio. me inclino para ouvir a batida em seu peito e sinto a presença de uma vida prestes a nascer. e penso: acho até que está vivo.

metódico


a ordem natural
das coisas:

o cair
maduro
de um fruto,
no chão


(nasce uma ciência)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

o tempo da palavra II


o tempo da palavra
(ou seria o pensamento?)
é o tempo da dor
do amor
da cisão

o tempo da palavra
- com todo o frescor e acidez
que ela possui
é o tempo de uma guerra

o tempo da palavra I


o núcleo de cada
palavra

respira e se agita,
borbulhante

uma palavra nascendo: ontem
uma palavra morrendo: agora

o núcleo de cada
palavra emerge
contra o vento,

e se enrijece,
bruta

como um pássaro
vencendo a tempestade

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

um postal


a realidade me come viva por dentro
prendo entre os dentes essa lisura de aço que
rasga minha boca apresentando todos os meus defeitos
todas as minhas amplitudes
como um soco na boca do estômago, às três horas da tarde,
a gente nunca sabe a que horas virá
a gente nunca sabe quando a platéia deixará de aplaudir
aquele ato encenado mil vezes,
a custa de muito choro e sorriso
na cara daqueles que encenam

cartomante

me dê sua mão
me deixe ler
sua solidão

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013


o tem
  po
se  es
v  a  i
 con
           ti
 nua
mente

e

lev
a os
os
sos
do of
íci
o

terça-feira, 8 de janeiro de 2013


d oi s
home
nsse
ol(e
nqu
ant
och
ov
e)ham

ilustração


eu não faço poesia
eu não faço poe
eu        faço p  es
eu         aço po 
eu não fa           sia
     não          p  es a

                     poesia

                     po  s a
                     poe
                     p      ia

                 
                    
                    

sábado, 5 de janeiro de 2013

a rosa imperial

no pátio escorregadio da memória permacem vivas as estátuas que, ao longo dos anos, eu cultivei como se fossem flores. mas são estátuas. são todas brancas, nobres e pesadas, de tamanhos diversos. aos seus pés, uma inscrição modesta, dando pistas apenas das suas origens, das suas envergaduras e permanências. hoje, não me dão tanto trabalho, mas, às vezes, custa movê-las para lá e para cá, quando o vento ameaça derrubá-las e corro para resguardá-las num lugar seguro. custa, um pouco, arrastá-las para o centro, quando um desejo morno irrompe e me vejo querendo contemplá-las todas juntas, lado a lado. sobrepor uma a outra, obtendo seus desvios. sobrepor uma a outra e atentar a seus contornos ásperos, poucos, macios. agora mesmo me cansa ajeitá-las novamente no lugar em que estavam. será que vão dar por essa falta? à noite? outro dia ouvi um ruído, parecia que choravam. dei de ombros porque não gosto de lamentações. mas elas choram com um som parecido, então fiquei sem saber o choro de quem. em seguida, ouvi uma voz me dizer, "que dura que és, vai virar pedra branca gigante um dia". dei de ombros também porque não vi o rosto de quem. e falava, falava, "vai virar pedra branca gigante". acordei com esse susto molhando meu rosto. não consegui mais dormir e verifiquei se estavam todas lá. estavam. o vazado da lua batia em suas curvas e lançavam um clarão para dentro. era bonito contemplá-las todas juntas, lá fora. não me dei por essas formas tão grandes. foram crescendo, crescendo, ficando cada vez mais espessas, quase imóveis. acredito que daqui um tempo eu não consiga mais arrastá-las para qualquer canto, estão cada vez mais pesadas, imperiais. já deixam uma marca profunda fincada nesse pátio em que habitam. admiro certa interdição de seus atos. suas mãos majestosas, por mais duras que sejam, carregariam uma rosa. contemplo o olhar estático de cada uma, mirando para o norte de mim mesma. admiro essa permanência, essa resistência, essa rigidez. admiro, por horas, a quietude dos seus passos.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013


         mep
          er
        dino
       meio
    docamin
       home
         pe
         rdi
     nomeio
         d
       oca
       min
      home
      perdi
        no
        me
        

la
nce(v a g a

r o s a

m e n t e)
i

no in(im

po

nem

te)finito

minhasorte.