sexta-feira, 20 de setembro de 2013

dois olhos grandes

um sonho dentro de um olho
ou o olhar descansando
na superfície dura de uma pedra:
todo sonho é perfeição

no limiar do olhar um sonho irrompe
e explode na cara do verbo querer

todo sonho é indagação
daquilo que é e está
e não quer rimar amor e dor

- mas rima,
mesmo sem querer,
amor e dor

hoje eu sonhei com você
e assim como ontem, e amanhã e depois
e talvez,

você estava mais vivo
você estava tranquilo
porque olhava pra mim


***

uma vez, meu sonho de menina foi um vestido trapézio. quis tanto que minha mãe se propôs a fazê-lo. tirou minhas medidas e depois de minutos já tínhamos o essencial: o desenho acabado, entre ângulos e linhas retas, sobre os moldes do tecido. acompanhei passo a passo a feitura desse vestido. dava palpites, dizia que não, um pouco mais curto e rodado, talvez. relutava, fazia que sim com a cabeça, pensava um pouco e decidia. minha mãe escutava. a cada pano cortado, se alinhavava em mim alguma coisa surpreendente e inédita. o barulho decidido da tesoura me deixava em êxtase, subtraindo o pano devagar, vagarosamente. talvez se a senhora costurar mais depressa eu consiga dizer se ficou bom. se ajoelhava até mim, ficava do meu tamanho. media novamente. enquanto isso, eu brincava com a fita métrica, querendo saber minha altura no mundo. media os pés, o braço, a cabeça. naquela época, eu dividia o mundo em duas categorias: coisas calculáveis e coisas incalculáveis. não que eu soubesse resolver expressões aritméticas muito complexas, mas, apresentava, ao meu modo, sensível e criterioso, alguma medida, maior ou menor, para as coisas mais sérias e importantes. o sonho do vestido era incalculável. já o vestido, depois de pronto, possuía alguma medida: um metro de seda branca com bolinhas vermelhas. como acabamento, uma golinha que abotoava por trás com um feixe de pérola. não me lembro de ter pedido, assim, com esse detalhe. mas minha mãe talvez entendesse de sonhos e de vestidos mais do que eu. sei que ele ficou pronto, e entre o desejo e a espera, morou em mim um tempo de indagação e magia. como entender o vestido depois de feito, se o sonho do seu feitio nasceu bem antes, perdurou por dias, ainda estava? como lidar com essa sensação de espanto e alegria? não entendia. usei o vestido ininterruptamente, cotidianamente, intensamente. ele me encantava e eu nem sei bem o por quê. talvez por ser parte de uma criação minha, de um desejo só meu. talvez porque um dia eu sonhei em tê-lo por perto e isso fez crescer em mim uma busca inadiável pelas coisas intangíveis, embora seu espaço no mundo coubesse perfeitamente sobre as minhas medidas.