um homem sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros gritos
abafados de outros tantos
arrastados e acumulados em ecos seriais
que entardecem o dia
para tecer uma mesma manhã noturna
um homem sozinho não tece uma manhã:
em vez, ele acorda, faz o seu café e se prepara
sozinho para mais um dia de luta
tecendo uma tela escura que não se chama escuridão
mas que se chama outro dia
e a história que ele faz fará ou fazia
é a história que ele faz a noite e de dia
num grito abafado,
num canto sozinho
e a tarde, o sol caindo
como um grito de um cão
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
carta ao profeta
sob o galho de uma oliveira
também nasce uma flor de jasmim
(de outros tempos, mediterrâneos e
o oceano inteiro para banhá-la)
como aquela que me olha
enquanto vejo as torres se erguerem
do mesmo lado da planície
também nasce uma flor de jasmim
(de outros tempos, mediterrâneos e
o oceano inteiro para banhá-la)
como aquela que me olha
enquanto vejo as torres se erguerem
do mesmo lado da planície
escrever me ajuda a não sei o quê
de um vitral que filtra dores antigas,
no desdobrar dessa luz
que invade
e colore uma dobra de um mármore
escrever me ajuda a fazer não sei o quê
com as palavras,
se todas juntas querem dizer todas juntas?
escrever pode ser uma forma de não saber
se elas se (re)voltam até você e
não explicam mais que o contorno
dessa escrita destinada a expressão
de um vitral que filtra dores antigas,
no desdobrar dessa luz
que invade
e colore uma dobra de um mármore
escrever me ajuda a fazer não sei o quê
com as palavras,
se todas juntas querem dizer todas juntas?
escrever pode ser uma forma de não saber
se elas se (re)voltam até você e
não explicam mais que o contorno
dessa escrita destinada a expressão
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
licença para um descompasso
meu avó sempre foi um homem cruel com as mulheres
(falo baixo porque isso não é tema de almoço)
e todas as mulheres tiverem que se curvar,
de algum modo,
à sua maneira
mesquinha, rasteira e imperial
de ver a vida
por cima dos ombros de alguma certeza inaudita
e professoral
e a lembrança fresca ainda de um pai que não foi
ou foi a seu modo de não ser
me traz também a lembrança fresca de alguém
que abusou e torturou e matou quantas vezes
sua pobre consciência o fez crer
no meu no teu no n(osso)
corpo o contorno das dobras do coração mais parece um balão
que sobe num jato e explode sobre as nuvens
sem estrelas e sem mistérios
e ao cair,
alcançam o garfo e os pratos que nomeiam o teu sabor
tantos nomes para essa noite
tantas noites para um mesmo nome
e agora eu vou contar
que faz sol e parece que não vai chover
mas meu corpo se envaidece com alguma mentira
posta sobre a mesa
e se envaidece ainda mais
com o nome do meu avó que eu repito
quando os corpos já se levantam
e todos olham acanhados
porque não era preciso tanto,
porque não era preciso nunca
que você tocasse assim
numa ferida que não lhe pertence
mas peço licença,
se isso te comove.
(falo baixo porque isso não é tema de almoço)
e todas as mulheres tiverem que se curvar,
de algum modo,
à sua maneira
mesquinha, rasteira e imperial
de ver a vida
por cima dos ombros de alguma certeza inaudita
e professoral
e a lembrança fresca ainda de um pai que não foi
ou foi a seu modo de não ser
me traz também a lembrança fresca de alguém
que abusou e torturou e matou quantas vezes
sua pobre consciência o fez crer
no meu no teu no n(osso)
corpo o contorno das dobras do coração mais parece um balão
que sobe num jato e explode sobre as nuvens
sem estrelas e sem mistérios
e ao cair,
alcançam o garfo e os pratos que nomeiam o teu sabor
tantos nomes para essa noite
tantas noites para um mesmo nome
e agora eu vou contar
que faz sol e parece que não vai chover
mas meu corpo se envaidece com alguma mentira
posta sobre a mesa
e se envaidece ainda mais
com o nome do meu avó que eu repito
quando os corpos já se levantam
e todos olham acanhados
porque não era preciso tanto,
porque não era preciso nunca
que você tocasse assim
numa ferida que não lhe pertence
mas peço licença,
se isso te comove.
a viagem
o pai dele se mudou esses dias, foi para longe
a mãe dele também
se mudou esses dias pra bem longe
da planície
desses dias
desse frio e o agito
e esse caos
maldito que me leva para a certeza
das casas que ficam,
que não tem previsão
e sobrevoam por alguma planície certeira cristalizada pelos anos
eu acendo uma vela no meu quarto escuro
e nomeio algum deus que não conheço
mas que agora jaz soberano no meu terreiro de pedras,
no meu terreiro de rezas
aflitas
me tragam alguma sorte
me tragam alguma morte
na qual eu me despeço de um mal que não cometi
e todo mal que cometi é todo mal que consenti
e todo mal que está por vir e cada mal que jaz aqui e ali
eu não consigo provar nessa reza o que é amor e dor
eu já tentei consolar uma missa inteira para o meu amor
uma missa e meia para toda dor e o amor
jaz no leito desse choro dessa vela
já acendi todas pra mim
pra ela
e nós,
e no fim
essa magia das coisas ocultas,
essa magia de um tempo vindouro
num terço num berço um santo pra nós
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
dois olhos grandes
um sonho dentro de um olho
ou o olhar descansando
na superfície dura de uma pedra:
todo sonho é perfeição
no limiar do olhar um sonho irrompe
e explode na cara do verbo querer
todo sonho é indagação
daquilo que é e está
e não quer rimar amor e dor
- mas rima,
mesmo sem querer,
amor e dor
hoje eu sonhei com você
e assim como ontem, e amanhã e depois
e talvez,
você estava mais vivo
você estava tranquilo
porque olhava pra mim
***
ou o olhar descansando
na superfície dura de uma pedra:
todo sonho é perfeição
no limiar do olhar um sonho irrompe
e explode na cara do verbo querer
todo sonho é indagação
daquilo que é e está
e não quer rimar amor e dor
- mas rima,
mesmo sem querer,
amor e dor
hoje eu sonhei com você
e assim como ontem, e amanhã e depois
e talvez,
você estava mais vivo
você estava tranquilo
porque olhava pra mim
***
uma vez, meu sonho de menina foi um vestido trapézio. quis tanto que minha mãe se propôs a fazê-lo. tirou minhas medidas e depois de minutos já tínhamos o essencial: o desenho acabado, entre ângulos e linhas retas, sobre os moldes do tecido. acompanhei passo a passo a feitura desse vestido. dava palpites, dizia que não, um pouco mais curto e rodado, talvez. relutava, fazia que sim com a cabeça, pensava um pouco e decidia. minha mãe escutava. a cada pano cortado, se alinhavava em mim alguma coisa surpreendente e inédita. o barulho decidido da tesoura me deixava em êxtase, subtraindo o pano devagar, vagarosamente. talvez se a senhora costurar mais depressa eu consiga dizer se ficou bom. se ajoelhava até mim, ficava do meu tamanho. media novamente. enquanto isso, eu brincava com a fita métrica, querendo saber minha altura no mundo. media os pés, o braço, a cabeça. naquela época, eu dividia o mundo em duas categorias: coisas calculáveis e coisas incalculáveis. não que eu soubesse resolver expressões aritméticas muito complexas, mas, apresentava, ao meu modo, sensível e criterioso, alguma medida, maior ou menor, para as coisas mais sérias e importantes. o sonho do vestido era incalculável. já o vestido, depois de pronto, possuía alguma medida: um metro de seda branca com bolinhas vermelhas. como acabamento, uma golinha que abotoava por trás com um feixe de pérola. não me lembro de ter pedido, assim, com esse detalhe. mas minha mãe talvez entendesse de sonhos e de vestidos mais do que eu. sei que ele ficou pronto, e entre o desejo e a espera, morou em mim um tempo de indagação e magia. como entender o vestido depois de feito, se o sonho do seu feitio nasceu bem antes, perdurou por dias, ainda estava? como lidar com essa sensação de espanto e alegria? não entendia. usei o vestido ininterruptamente, cotidianamente, intensamente. ele me encantava e eu nem sei bem o por quê. talvez por ser parte de uma criação minha, de um desejo só meu. talvez porque um dia eu sonhei em tê-lo por perto e isso fez crescer em mim uma busca inadiável pelas coisas intangíveis, embora seu espaço no mundo coubesse perfeitamente sobre as minhas medidas.
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