e podia passear resoluta dentro de si? a manhã adentrava no sulco raso do seu rosto e aquecia algum impedimento, algum lugar inabitado, sem nome. um pé após o outro, pensava. ela caminhava como se aprendera agora. um pé após o outro e os passos se dão assim. se davam? se quisesse voltar, seus pés saberiam o caminho embora ela mesma nem soubesse o por quê. se quisesse voltar seria no estreito caminho em largas avenidas e pontes e rios tão largos que seu peito se expandia agora todo só de lembrar que o tempo não fazia chuva. e só podia continuar, caminhando. um pensamento após o outro se desdobrava inteiro e caía aos seus pés. um pensamento solto, quando penso? se abre e se estica no espaço contido em si mesmo preso numa sequência. nunca solto, sozinho. uma cadência infinita de interfaces pairando no azul rodeado de muitos outros pensamentos vivos e mortos ou calados contornando o vazio. um pensamento ruminava dentro dela. queria se desvincilhar, fazê-lo nascer em outro canto com novas aberturas. na verdade, queria que ele aprendesse a ser só. um pensamento após o outro isso eu até queria mas não podia mais, eu andei pensando muito em te deixar sozinho pairando no escuro. para ver a potência da sua solidão e sentir a origem da sua força tentando estancá-la, sozinho. uma vaidade só minha, que de vaidades se nascem muitas vidas, e outros pensamentos. por isso quero solto. não andemos de mãos dadas agora. perderá o sentido, você diz? perderá a toada e a sequência de séculos se acumulando amontoados e densos na envergadura de qualquer ciência feita também no escuro. mil tiros dados, a experiência. mas deixe-o agora, respirando aflito como um filhote sem a mãe por perto. será que pode me ouvir? se eu disser buhhh na certa se assustará. mas não quero que tenha medo, vou até te dar um nome. vou te dar um nome cheio de sentidos e uma vontade imensa para não querer jamais parar de respirar. mas me deparo com seus olhos úmidos e surpresos, admirando o vazio. me inclino para ouvir a batida em seu peito e sinto a presença de uma vida prestes a nascer. e penso: acho até que está vivo.