quinta-feira, 31 de outubro de 2013

uma noite

ela descobriu o céu ontem
e por ter transposto esse fio
ficou suspensa e imóvel
entre o susto e a contemplação

quarta-feira, 23 de outubro de 2013


e sempre naquele devir
desconstruir o que fui
e colar os cacos
com uma goma

talvez nasça daí
uma peça que se quebre
outra

talvez nasça daí
uma nova inocência,
menos século vinte&um

a goma se distrai
e em vez de juntar espreita

se der,
as verdades mínimas
tornam a vida mais possível

quiser,
sou pra sempre impossível
quase um candelabro pegando fogo
nesse silêncio irrevogável
que são seus olhos sobre a mesa



terça-feira, 22 de outubro de 2013

um copo de nanquim

a destreza no meu corpo
arrebenta
toda a tempestade
que um dia
uma confissão me trouxe

me deixou aqui despercebida
aos detalhes mais
simples

que é de tinta
essa vida

meus olhos castanhos coroam
alguma planície ao longe
mas agora minguam
para um copo de nanquim

por que(m) choram meus olhos
que também são negros quando ardem
e tão sóbrios quando latem

porque meus olhos choram
que trago a ti um copo de nanquim
para que borre comigo
a tempestade
que um dia
uma confissão me trouxe

terça-feira, 15 de outubro de 2013


agora a noite carrega a palavra pra dentro de um buraco vazio e comprido carrega pra dentro de um buraco vazio e comprido carrega a palavra rastejante no ouvido a palavra cega carrega a palavra quebrada pra dentro não tem nada não tem água está escuro sem nada a palavra um ouvido vem vindo carrega a palavra pra dentro de um buraco escuro e vazio carrega a palavra pra dentro de um ouvido vazio e comprido carrega e martela mil vezes até a palavra quebrar o ouvido o caminho e o escuro.


desprezar a palavra
até seu último suspiro
ser vento, pista, chegada



sexta-feira, 11 de outubro de 2013

tão clara
tão sua
a lua encosta
no seu rosto

pluma
subo a escada
para ver de perto a lua
e desperto
mais clara
que o claro
da lua

haicai clara luna

                                               para maria clara

olha a lua
longe e clara
vou de escada




quarta-feira, 9 de outubro de 2013

virada

não dá pra fingir que ninguém saberia. agora mesmo me ergo e penso quem sabe um dia você soubesse. o arremesso que faço, me jogar tresloucada no olho da rua. não ouço recado. carro de aço subindo a planície de pó e neblina. óleo de carro fazendo como borra de café pela faixa. na rua seu pé periclitante rondando, não vi acenar tantos dedos, me virei do avesso na esquina e tombei no horizonte. às dez horas de sol todo mundo confunde café com fumaça. eu me entrego num trago, nem duvido do dia. daí me lembro que nasci mais concreta que o acaso e nem cheguei no ponto que queria. eu me entrego num carro, que a rua me tragou com seu cheiro moderno, de ave moderna. o carro mergulhou seu dente afiado no azul de outro dia, passou por cima por baixo da avenida (ou da menina?), tal qual eu não vi decolar no vai e vem dessa via eu não via você vem, ou não vem? não sabia. não dá pra fingir que ninguém saberia. ontem a noite nem consegui o cachorro latindo era um gato minto era um rato minto era um sonho (ou soldado?) pulando telhado era um banho de lua gelado era um canto de chuva um chiado de mim. minto, era um banho dentro de um sonho dentro de um gato dentro do buraco. mas isso aconteceu do outro lado da cidade, numa virada.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

caminho

ter sido
aquela que te quis
profeta
só atesta
meu grande
anseio
em te ter
ao meio
(ou no centro)
do meu imenso
jardim


domingo, 6 de outubro de 2013

homem age


bashô pintou
na destreza do acaso
e ficou







põe o máximo
nesse mínimo
haicai





sábado, 5 de outubro de 2013




outubro me interpela
quiser sou apenas vento
sobre a pele








outubro me questiona
quanto de ontem
ainda à tona?






outubro nunca chega
sem compasso
vem vento, lento abraço








um adendo
quanto de mim
fora e dentro






no intervalo da vida
peso em mim
medida por medida



em paris tudo dança
até a mágoa balança



se despeça
cada peça
en cen ação







como ser
se nunca
ter sido

alguma
vez
foi comigo










setembro vai longe
resto do azul
no horizonte



sexta-feira, 4 de outubro de 2013

controverso III

ai de mim
quanto mais eu digo
não digo quanto
mais um tanto
se desfaz
e eu me refaço
em cada ai

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

controverso II

se eu disser que meu amor hoje acordou mais doce e apaziguado, você vai acreditar se eu disser que hoje, na altura em que o sol se esconde, na leveza desse mar de quando, acordou mais ao seu lado, coberto de si e de mim e por um instante disse sim


controverso

e era um sim toda vez
quase nunca foi não
foi dessa vez
quase ou sempre
quando da primeira



terça-feira, 1 de outubro de 2013

haicaizinho da primavera que (mal) chegou



folhas secas que traz
na bagagem?
miragem







má educação

quando muito
aceito pouco
inda devolvo