meu avó sempre foi um homem cruel com as mulheres
(falo baixo porque isso não é tema de almoço)
e todas as mulheres tiverem que se curvar,
de algum modo,
à sua maneira
mesquinha, rasteira e imperial
de ver a vida
por cima dos ombros de alguma certeza inaudita
e professoral
e a lembrança fresca ainda de um pai que não foi
ou foi a seu modo de não ser
me traz também a lembrança fresca de alguém
que abusou e torturou e matou quantas vezes
sua pobre consciência o fez crer
no meu no teu no n(osso)
corpo o contorno das dobras do coração mais parece um balão
que sobe num jato e explode sobre as nuvens
sem estrelas e sem mistérios
e ao cair,
alcançam o garfo e os pratos que nomeiam o teu sabor
tantos nomes para essa noite
tantas noites para um mesmo nome
e agora eu vou contar
que faz sol e parece que não vai chover
mas meu corpo se envaidece com alguma mentira
posta sobre a mesa
e se envaidece ainda mais
com o nome do meu avó que eu repito
quando os corpos já se levantam
e todos olham acanhados
porque não era preciso tanto,
porque não era preciso nunca
que você tocasse assim
numa ferida que não lhe pertence
mas peço licença,
se isso te comove.