sábado, 5 de janeiro de 2013

a rosa imperial

no pátio escorregadio da memória permacem vivas as estátuas que, ao longo dos anos, eu cultivei como se fossem flores. mas são estátuas. são todas brancas, nobres e pesadas, de tamanhos diversos. aos seus pés, uma inscrição modesta, dando pistas apenas das suas origens, das suas envergaduras e permanências. hoje, não me dão tanto trabalho, mas, às vezes, custa movê-las para lá e para cá, quando o vento ameaça derrubá-las e corro para resguardá-las num lugar seguro. custa, um pouco, arrastá-las para o centro, quando um desejo morno irrompe e me vejo querendo contemplá-las todas juntas, lado a lado. sobrepor uma a outra, obtendo seus desvios. sobrepor uma a outra e atentar a seus contornos ásperos, poucos, macios. agora mesmo me cansa ajeitá-las novamente no lugar em que estavam. será que vão dar por essa falta? à noite? outro dia ouvi um ruído, parecia que choravam. dei de ombros porque não gosto de lamentações. mas elas choram com um som parecido, então fiquei sem saber o choro de quem. em seguida, ouvi uma voz me dizer, "que dura que és, vai virar pedra branca gigante um dia". dei de ombros também porque não vi o rosto de quem. e falava, falava, "vai virar pedra branca gigante". acordei com esse susto molhando meu rosto. não consegui mais dormir e verifiquei se estavam todas lá. estavam. o vazado da lua batia em suas curvas e lançavam um clarão para dentro. era bonito contemplá-las todas juntas, lá fora. não me dei por essas formas tão grandes. foram crescendo, crescendo, ficando cada vez mais espessas, quase imóveis. acredito que daqui um tempo eu não consiga mais arrastá-las para qualquer canto, estão cada vez mais pesadas, imperiais. já deixam uma marca profunda fincada nesse pátio em que habitam. admiro certa interdição de seus atos. suas mãos majestosas, por mais duras que sejam, carregariam uma rosa. contemplo o olhar estático de cada uma, mirando para o norte de mim mesma. admiro essa permanência, essa resistência, essa rigidez. admiro, por horas, a quietude dos seus passos.