mas a gentileza também pode ser o apanágio daqueles que não esquecem, pensava. o desdobrar das palavras se aglutinando numa tarde fria, dando em nada. o desdobrar lento de qualquer palavra morna e passageira dava no azul. o céu tão vasto não pode abarcar o que sinto, por isso ando pensando muito em ser repouso e névoa num ponto alto de outro céu. fincava os pés num distante arenoso, profundo. caminhava com o mesmo temperamento de sempre, só que mais suave agora. o vento passa e leva meus cabelos para trás, parece querer me levar também. o vento passa e penteia cada fio num balançar eterno, confuso, mas real. enquanto isso, caminho e assento a minha vaidade sobre essa terra batida, essa fibra de aço que se distende sobre as eras. a cada passo, um sumo doce e festivo cobre os meus pés. em cima de qualquer vazio, as palavras do mundo tomam forma e gosto, deliberando sobre o surgimento de qualquer coisa. me pedem para ser outra. me pedem tanta coisa, não mais o previsível. eu é que me esqueço no arcabouço singelo de mim mesma e refaço qualquer traço inteligível porque não pretendo mais ser tão abrupta. um cansaço vadio se aproxima e deita sobre mim. alargo meu corpo pra recebê-lo e vejo um conjunto de nuvens se aproximar, destoando o fim de algum fim. eu passo a minha vez. imaginava que o futuro só fosse futuro enquanto sonho. mas deitada nesse chão, o olhar detido nesse céu azul, penso que o futuro também é essa nuvem que se ergue e, carrega, passageira, uma cor pra algum lugar.