sexta-feira, 5 de outubro de 2012

na mesa


a família rodeava a mesa e esperava o jantar. esperavam também a figura do pai repousar resoluta no canto comprido da mesa. mas até que ele não chegasse, o sorriso de todos se expandia, se espraiava e derramava um pouco do colorido alegre que caía e se assentava e se confundia até com o florido da toalha e fazia aquele lugar parecer um lugar possível, respingando alguma certeza pelos cantos da casa e pelos cantos da boca uma verdade inaudita nascia e sorvia um fio de delicadeza dos seus instantes finais, até todos se calarem, ajeitarem seus corpos frente a mesa, frente aos copos e talheres, frente ao destino, frente aquela paisagem dura e insípida, frente ao corpo imperial e o olhar incidente que a noite teria que digerir e engolir cada pedaço daquela comida insossa e nauseante, cada pedaço daquele dia absurdo e intragável, aquele mastigar triturante que absorvia também nossos corpos, triturados, mastigados e deficientes, aquele mastigar de mandíbula que não acabava nunca, que abocanhava sedento cada parte maciça de uma vida inteira de luta, e mastigava bem devagar vigiando um a um, engole seco a comida, engole a seco essa vida, que os olhares não se cruzavam, que os olhares não se olhavam porque quem olha deseja algo e ali ninguém desejava nada a não ser que o tempo corresse o mais depressa possível para que ainda um resto de noite sobrasse e fosse possível respirar, ainda que respirar fosse a última prece forjada num som aturdido das nossas bocas miúdas que mastigavam, que se apertavam e se alinhavam num horizonte longínquo, misturando o gosto daquela noite com uma amargo qualquer.