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família rodeava a mesa e esperava o jantar. esperavam também a figura do pai
repousar resoluta no canto comprido da mesa. mas até que ele não chegasse, o
sorriso de todos se expandia, se espraiava e derramava um pouco do colorido
alegre que caía e se assentava e se confundia até com o florido da toalha e
fazia aquele lugar parecer um lugar possível, respingando alguma certeza pelos
cantos da casa e pelos cantos da boca uma verdade inaudita nascia e sorvia um
fio de delicadeza dos seus instantes finais, até todos se calarem, ajeitarem
seus corpos frente a mesa, frente aos copos e talheres, frente ao destino,
frente aquela paisagem dura e insípida, frente ao corpo imperial e o olhar
incidente que a noite teria que digerir e engolir cada pedaço daquela comida
insossa e nauseante, cada pedaço daquele dia absurdo e intragável, aquele
mastigar triturante que absorvia também nossos corpos, triturados, mastigados e
deficientes, aquele mastigar de mandíbula que não acabava nunca, que abocanhava
sedento cada parte maciça de uma vida inteira de luta, e mastigava bem devagar
vigiando um a um, engole seco a comida, engole a seco essa vida, que os olhares
não se cruzavam, que os olhares não se olhavam porque quem olha deseja algo e
ali ninguém desejava nada a não ser que o tempo corresse o mais depressa
possível para que ainda um resto de noite sobrasse e fosse possível respirar,
ainda que respirar fosse a última prece forjada num som aturdido das nossas
bocas miúdas que mastigavam, que se apertavam e se alinhavam num horizonte
longínquo, misturando o gosto daquela noite com uma amargo qualquer.