sábado, 15 de dezembro de 2012

naquele dia o que se ouviu foi um estrondo que partiu o vazio daquele sala em mil partes. e ficamos a catar os pedaços que sobrevoavam por nossas cabeças e se moviam lentamente de um lado para o outro como um hastear de bandeira no alto num dia com pouco vento. - a bandeira lá em cima, hesitante. o branco da sua mancha, hesitante. quando, finalmente, nos demos conta de que o ruído acabara, de que o estrondo se fora, ficamos imóveis na sala, como pinos soltos rodando atônitos em volta do que havia sobrado de nós. e ouvi alguém chamar por mim mas sua voz ecoava distante num túnel longo longe e torto cheio de rasgos intermitentes que eu não conseguia distinguir muito bem o que você está me dizendo? olhava o seu rosto coberto de uma névoa branca te vendo desfocada na fumaça envolta na roda da sua retina a minha cintilava espelhando eu mesma? espelhava eu mesma. eu me vi na roda da sua fortuna. e ela girava girava sem parar, fiando os fios que se avolumavam e cresciam, fiando os ruídos que me ensurdeciam e cresciam, fiando um caminho de sorte por entre o batente daquela porta alguém entrava e saía, alguém gritava e caía, alguém falava falava e media o meu fio com a medida que tinha nas mãos, com a medida das suas próprias mãos, e a soberba ilustre de uma maquinaria de aço correndo e cuspindo óleo e tradição de uma vida inteira de triunfos não me deixava mais dormir, não me deixava mais mentir quando então eu pude escutar o canto do esgarçar vagaroso de um fio que se rompia, de um laço se desfazendo, frouxo, largo, manso. se destacando do resto por ser uma parte inteiramente sozinha.