quarta-feira, 14 de maio de 2014

esboço de um diário de viagem

viajei sentada num ônibus que foi da capital de são paulo até a capital de um coração aflito. descendo a serra do cafezal em curvas tão nauseantes, não tinha trégua o ziguezague na estrada e pouco dormi. meus sonhos foram arremessados contra os faróis amarelados dos caminhões que transportam tudo menos uma noite de sono tranquila. só acordei quando o motorista gritou, se apoiando nos degraus, "parada de quinze minutos" e todos desceram. não desci. fiquei sentada ouvindo os passos agitados daqueles que tragavam seu primeiro cigarro depois de duas horas de viagem. invejei aquela fumaça sendo jogada com tanta vontade pra fora dos pulmões, como uma onda lenta que chega e molha uma ponta de areia e retorna extasiada, comprometida com alguma certeza. às vezes ter um vício ajuda a trazer o prazer com mais facilidade. continuei absorta nas minhas inquietudes previsíveis, com os meus anseios corriqueiros que não me davam prazer algum. a não ser o de sentir, com mais dificuldade (tenho mania para as coisas difíceis), o peso completo daquela viagem, o seu peso sensível e real. durou oito horas até a parada final. quando cheguei, fui direto ao hotel que reservara por três noites. estava cansada. trouxera uma mala pequena e poucas notícias.

                                                                     ***

nos encontramos logo em seguida. me sentia estrangeira naquela cidade. a falta de sobreavisos me deixava alheia a algo familiar mas desconhecido. não fazia tanto frio como eu pensei que faria. na verdade, o calor das minhas mãos enunciavam um sentimento inacabado, que percorria meu corpo como um lampejo. 

                                                                      ***

beijo seu sonho
beijo suas dúvidas
"meu medo me deseja ardentemente"
beijo meu medo também
enquanto isso 
você me beija e me deseja
como um trago de cigarro
obrigada por me beijar


                                                                      ***

ela ria no banco de trás fazendo careta. a técnica era abrir mais a boca, mostrando a língua assim. depois seus dedos dedilharam alguma música e um pássaro fugiu das suas mãos. mas ela o fisgou no ar, rapidamente. me virei para saber se ele ainda estava vivo, mas ela não queria mostrar. indaguei novamente, ela riu. soltou as mãos e começou a piar. 


                                                                      ***

naquele dia não almocei nem nada. só café e grandes expectativas. no quinto andar do hospital tinha uma lanchonete e uma área aberta para fumantes. só sei que fiquei ali, sentada, meditando sobre a finitude de uma formiga que teimava em subir na minha xícara. pensei seriamente em esmagá-la com meu dedo indicador. eu poderia matá-la, ali mesmo, sem nenhuma explicação. não que exista justificativa para tirar uma vida. não há, nem deve haver (ou deve?). no entanto, o desejo irresistível de esmagá-la continuava. nada de grandioso nessa divagação, mas perdi meia hora nisso. terminei meu café e voltei para o terceiro andar. nenhuma notícia ainda. já se passara duas horas e ninguém sabia me dizer se tudo bem, se nada bem. voltei pra sala de espera, a tevê ligada no mesmo canal. fui ao banheiro. voltei. lembrei de quando nos conhecemos, da gente tateando a vida no escuro. lembrei do seu sorriso de menino me fazendo mulher, de algumas mágoas, das muitas saídas para as nossas frustrações e desejos. as lembranças vieram num tempo só delas, e entre um comercial e outro, uma música abafada de fundo compunha a trilha daqueles fios de memória. sentada na cadeira, sentindo o peso das horas, fechei os olhos e me vi nua, adentrando um mar calmo, de poucas ondas. mergulhei profundamente e fui nadando até o chão de areia daquele montante de água. permaneci ali por algum tempo. pensei em me afogar em pensamento, mas a água me dava um alívio tão grande que só retornei quando me disseram que você já estava no quarto e foi quando subi três lances de escada para te ver pela primeira vez.


                                                                      ***

quando você revelar as fotos tiradas naquele último domingo, verá que o contorno do meu rosto se perde um pouco na linha expressiva da cidade. mas ainda dará para ver como ficaram úmidos os meus olhos depois de guardar um segredo. depois me avise se o branco da blusa é mais branco que o branco da foto. e se o vermelho dos lábios ficou intacto ou borrado, na foto.


                                                                      ***

quando você revelar as noites tiradas naquele último domingo, verá que o contorno do meu dia se perde um pouco na linha expressiva da cidade. mas ainda dará para ver como ficaram úmidos os meu dias depois de guardar uma noite.


                                                                      ***

se o branco da blusa ficar 
mais branco 
que o branco da foto
você verá que 
o que dá luz
na verdade
é o negro
dos seus olhos

                                                                       ***


no elevador, você parecia impaciente. nos despedimos e desci como quem sobe ao vigésimo andar. chamei um táxi e o que aconteceu depois, até minha parada final, foi só o tempo do corpo se ajustar a um outro tempo, mais demorado e difuso.



                                                                        **


na última noite no hotel eu tomei um banho. eu tomei toda bebida, sozinha. com o abajur aceso e a luz do quarto apagada, deitei a cabeça na cama e procurei dormir. o silêncio era a visita de todos os quartos. passava das duas. não era a tevê muito menos a janela que me distraía. era um ruído que vinha de longe, de um tempo imemorial. um ruído estreito, intenso, balançando o vazio. virei a cabeça pra ouvir melhor. em seguida, virei o resto do corpo também. era o som baixo de uma milonga esquecida, beijando-me. não me lembro se sonhei naquela noite.