deixar as emoções num tempo vitalício, o antes e o agora. não sei mais escrever sem pensar em qual tempo direi. não sei mais escrever se não conheço todos os outros, tempos e versos. me recuso a dizer o que nunca nada mudará no mundo nem em mim
digo: nem em mim
talvez um olhar que eu descarregue na paisagem que se esvai ou se retrai. eu me distraio sempre e me ergo inteira pra constatar que nenhuma palavra à toa hoje me deu bola. nenhuma palavra hoje me disse: vem. pois eu fui caminhando passos largos me desalinhando passo a passo. era o que eu queria. outra versão do quê. uma outra nada daquela, mais subaquática e menos terrena. mais água. quanto mais água, mais translúcida
e ainda assim, não sei
e ficar toda à toa dizendo qualquer? e ficar sempre procurando se talvez? não quero construir um quarteirão de versos se você não puder mais vir, se você também não mais dobrar a esquina. não posso deixar que esse texto me ataque assim de sobreaviso. mas digo que faria tudo outra vez. e sem nenhum tempo perfeito eu deixaria todos os outros versos à míngua. deixaria a boca seca à míngua também. sem nenhuma droga pra você se poupar, sem nenhum nota pra você se conter, sem véu nem mistérios
eu te quis em um só verso, inteiro em poucas linhas
e ainda quero o in verso daquilo que quis e procuro, continuando
porque a prosa me desalinha, mas talvez te queira em prosa também. tudo isso foi e é meu mundo. e não quero saber do que se trata. nada disso se encaixa mais perfeitamente do que te ver num verso. te ouvir num verso, quando leio
"a linha de uma vida inteira"
e me emociono porque sei que se um dia acaba, a linha fica pois o verso se desdobra assim:
a vida inteira pra dizer o que sentes & um verso que fiz e não esqueço