sábado, 1 de outubro de 2011

o círculo

era um filho adotado de há muitos anos. uma vez a mulher quis um filho lindo então esperou, esperou. os dias vieram e pariram um menino ainda preso no esquecimento de alguém. o sol, a noite e a tempestade, todos juntos fizeram festa e um ritual se anunciou. o menino chegou em casa logo quis brincar com o cachorro, que abanava o rabinho pro menino, para a empregada, a mulher, o homem e todos aqueles que passavam por ali. o cachorro brincava com o menino a tarde imensa prolongada entre latidos e risadas. e o menino cresceu naquele sossego de ser um filho único, se bem que as vezes dividia a atenção entre a coleira e o rabinho. mas ele um dia se viu triste, triste, a mãe arrumando tudo, a mala pronta lá embaixo, da escada deu para ver a mala pronta primeiro que ele. nem mais um dia ela podia esperar esse menino não me dá sossego. os olhinhos e o rabinho balançavam, trepidavam, se enrolavam. os latidos num círculo ancestral procuravam uma resposta. o menino sem entender não fez mais riso, entrou no carro e fez que sim com a cabeça. quando chegaram no destino, a mulher foi logo dizendo que o menino não fazia por onde. que não, nada, que levassem o menino bem pra longe de mim agora que o tempo não me ajuda mais. o menino calado no seu mundo de menino, foi olhando longe o carro na poeira se esfumaçando. a mulher nem olhou mais, que a distância de um olhar frio se arrebenta no horizonte. e o menino foi adentrando naquela fresta de abrigo, naquela picada de dor que atravessava o seu pensar. e acostumado já a ser tão só, foi logo se dando conta que talvez o destino o quisesse assim, sem o seu cachorro.